Centímetros de vida

Centímetros de vida*

RubemPenz

Sempre que se fala no gênero crônica, as definições teimam em apontar para termos diminutivos: irrisório, diz Fernando Sabino; efêmero e sobre fatos miúdos, segundo Afrânio Coutinho; é como um copo d’água, compara Vinicius de Moraes (fico por aqui, mas há muito mais na mesma direção). De fato, os cronistas, por dever de ofício, não trabalham com lunetas na busca do altivo, e sim com lupas que permitam revelar com grandeza os pormenores do dia a dia.

A urgência do fechamento do jornal é fator determinante para a brevidade dos temas escolhidos, bem como justificativa para qualquer abordagem mais superficial. Crônica é tempo e, na imprensa, tempo é sempre o imediato, o agora, o já. Além do mais, para acompanhar o leitor em sua correria, o texto não pode oferecer muitos obstáculos: mergulhos em teses profundas, picos de linguagem elevada, curvas de raciocínios enigmáticos. A mensagem precisa ser negociada na velocidade do semáforo; no intervalo do cafezinho. Um prefácio para a atividade principal.

os cronistas, por dever de ofício, não trabalham com lunetas na busca do altivo, e sim com lupas que permitam revelar com grandeza os pormenores do dia a dia.

Mesmo habitando os periódicos, crônica não é notícia – é ponto de vista. Ou, no mínimo, um pé lá e outro cá. Estar no jornal é sua contingência. Também uma limitação a ser superada com o objetivo de oferecer ao leitor um átimo de lucidez, de encantamento, de irreverência ou humor. Ironia fina para contrapor o grosso do noticiário. Paisagem sobre o muro que edifica a da rigidez dos fatos. É com sua finura que a crônica se esgueira entre as frestas da consciência, revelando sempre haver outro lado nas questões.

Há, porém, um momento em que mesmo o menor dos gêneros literários ganha o generoso facho dos holofotes: quando ascende ao livro. A simples troca de suporte modifica o ânimo do leitor, acrescenta peso às palavras, permite o surgimento de insuspeitada profundidade. Uma elevação tão grande que deve ser galgada apenas pela crônica que sobrevive ao danoso efeito do tempo – simultaneamente sua bênção e sua maldição. É quando a lupa migra para as mãos de quem lê e, nos centímetros de vida contidos no texto, um universo de interpretações se revelam.

*Publicada originalmente no Metro Jornal em 11-12-2013

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