O ciclo das máscaras

O ciclo das máscaras

Rubem Penz

A vida é feita de ciclos, de fases, percursos. Começos, meios e fins. Pensava nisso ao me dar conta de que até muitíssimo pouco tempo, menos de dois anos, eu jamais pensaria em sair de casa usando uma máscara facial de proteção (aliás, olhava para as imagens vindas do Oriente – mascarados nos metrôs – e considerava uma distopia). E, também, a pouquíssimo muito tempo aguardo ansiosamente a oportunidade de poder parar de me proteger de tudo e de todos. Ao menos o tempo inteiro.

Recordo que meu primeiro estranhamento com as máscaras aconteceu no dentista. Parece ter sido ontem, mas faz uns bons anos que deixamos de trocar respiração na cadeira dos consultórios com aquela pessoa debruçada sobre nós. Hoje, nossa, nem acredito no que parecia natural – e este exemplo me vem quando falamos em novo normal: hábitos e procedimentos de prevenção com a capacidade de nos fazerem olhar para trás e pensar que já poderiam existir antes. E que vieram para ficar.

Por outro lado, há necessidades temporárias. Corro o risco de parecer escatológico demais (o tema desta crônica está encostado em nosso nariz e boca), mas lembrei de fraldas. Elas respondem a períodos em nossa vida: imprescindíveis para bebês e crianças pequenas, temporários em algumas situações, de volta ao envelhecermos. É como quero crer: a fase passará. A pandemia será apenas um período em que a sociedade não controlou o simbólico esfíncter dessa m**** toda, e seu uso aconteceu apenas para que ela não se espalhasse. Depois, com a saúde pública sob controle, sua dispensa seria natural.

Tudo indica que vivemos uma transição ao estilo “sei que nada será como antes, amanhã”.

Ainda pensando em ciclos, as próprias máscaras cumpriram alguns a elas inerentes. No começo, cabiam todas – até as improvisadas, feitas com Perfex e elásticos, TNT, lenço, pano de prato… Depois, pelas mãos das costureiras, elas passaram a vir estampadas, delicadas, humoradas até. Tipo moda. Foi quando o meio deu espaço à mensagem: escudos de times de futebol, marcas corporativas, imagens e frases de efeito. Por fim (fim?), quando já não mais se vê as improvisadas, quem pode já opta pelas certificadas pelo INMETRO, mais seguras, profissionais.

Antigos normais, períodos, fases, gráficos de contágio, ocupação de UTIs, protocolos de segurança, passaportes vacinais… Tudo indica que vivemos uma transição ao estilo “sei que nada será como antes, amanhã”. Controlar a pandemia não significa fazer sumir o vírus – ele, como o H1N1, passou a existir e pacificar a questão é ser realista. Não vejo a hora em que o uso das máscaras deixará de ser obrigatório para ser recomendável (quando se está gripado, por exemplo, como já existia o “não chega perto de mim”). Anseio por um novo ciclo.

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